terça-feira, 19 de abril de 2016

Produção de arte memoria do barro das mulheres de Sçao Miguel -santa Luzia Territorio de caetité



















   O patrimônio cultural compreende o conjunto de valores materiais e não materiais  que dão sentido à vida e expressam a criatividade e identidade de um povo
   Faz parte deste universo todo e qualquer testemunho natural ou do fazer  humano que tenha caráter memorial e de pertencimento.O idioma, os ritos, as crenças , as tradições , os lugares . as paisagens , os monumentos, as obras  de arte, os acervos e os saberes adquiridos são elementos que diferenciam culturalmente uma sociedade perante as  outras.
   Na comunidade de São Miguel, povoado de santa Luzia  em Caetité, encontramos as irmãs;Dalva, Dileuza e  Preta, ainda sua prima dona Clemencias  essas brilhantes ceramista são as resistência dessa memória patrimonial ainda viva nessa  área territorial  do distrito, ainda em são Miguel temos o toque típico do violão sertanejo  do senhor Manoel.Da Forquilha temos a única guerreira , a Jovem Juliana na produção da arte do cipó as valentes mulheres e homens da comunidade quilombola de Malhada  em Maniaçu , completando com o toque  do violão sertanejo do senhor José do Junquinho,  enfim estamos frente as agonizantes situações da memória cultural e identidade coletivo da cultura popular  de nossa comunidade tradicionais
 Um Pouco da História da cerâmica  
 



INTRODUÇÃO
Coeva do fogo, a cerâmica — do grego "kéramos" , ou "terra queimada" - é um material de imensa resistência, sendo freqüentemente encontrado em escavações arqueológicas. Assim, a cerâmica vem acompanhando a história do homem, deixando pistas sobre civilizações e culturas que existiram há milhares de anos antes da Era Cristã.
Hoje, além de sua utilização como matéria-prima de diversos instrumentos domésticos, da construção civil e como material plástico nas mãos dos artistas, a cerâmica é também utilizada na tecnologia de ponta, mais especificamente na fabricação de componentes de foguetes espaciais, justamente devido a sua durabilidade.
A ORIGEM DA CERÂMICA
"O primeiro artesão foi Deus que, depois de criar o mundo, pegou o barro e fez Adão." (ditado popular paraibano)
Estudiosos confirmam ser, realmente, a cerâmica a mais antiga das indústrias. Ela nasceu no momento em que o homem começou a utilizar-se do barro endurecido pelo fogo. Desse processo de endurecimento, obtido casualmente, multiplicou-se. A cerâmica passou a substituir a pedra trabalhada, a madeira e mesmo as vasilhas (utensílios domésticos) feitas de frutos como o coco ou a casca de certas cucurbitácias (porongas, cabaças e catutos) .
As primeiras cerâmicas que se tem notícia são da Pré-História: vasos de barro, sem asa, que tinham cor de argila natural ou eram enegrecidas por óxidos de ferro. Nesse estágio de evolução ficou a maioria dos índios brasileiros. A tradição ceramista — ao contrário da renda de bilros e outras práticas artesanais — não chegou com os portugueses ou veio na bagagem cultural dos escravos. Os índios aborígines já tinham firmado a cultura do trabalho em barro quando Cabral aqui aportou. Por isso, os colonizadores portugueses, instalando as primeiras olarias nada de novo trouxeram; mas estruturam e concentraram a mão-de-obra. O rudimentar processo aborígine, no entanto, sofreu modificações com as instalações de olarias nos colégios, engenhos e fazendas jesuíticas, onde se produzia além de tijolos e telhas, também louça de barro para consumo diário. A introdução de uso do torno e das rodadeiras parece ser a mais importante dessas influências, que se fixou especialmente na faixa litorânea dos engenhos, nos povoados, nas fazendas, permanecendo nas regiões interioranas as práticas manuais indígenas. Com essa técnica passou a haver maior simetria na forma, acabamento mais perfeito e menor tempo de trabalho.
Quando os populares santeiros, que invadiram Portugal no século XVIII, introduziram a moda dos presépios, surgiu a multidão de bonecos de barro de nossas feiras. Imagens de Cristo, da Virgem, Abades, de santos e de anjos começaram a aparecer. Os artistas viviam à sombra e em função da Igreja ou dos seus motivos. O mais célebre artista dessa fase foi Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
Pouco a pouco — da mesma forma que aconteceu com o teatro católico medieval que foi transformado no Brasil em espetáculos populares como as pastorinhas, o bumba-meu-boi e os mamulengos — a arte do barro foi se tornando profana. Ao final, era o seu meio que os artistas começaram a retratar: simplificaram as formas que passaram apresentar, sem nenhum artifício, tipos, bichos, costumes e folguedos.
ORIGEM NO BRASIL
No Brasil, a cerâmica tem seus primórdios na Ilha de Marajó. Na segunda metade do Oitocentos, a ciência arqueológica voltou-se para territórios e continentes além de Grécia e Roma; assim, ocorreram escavações na Amazônia, especialmente na ilha de Marajó sendo o centro de Santarém o mais generoso com os pesquisadores.
Os arqueólogos consideraram os vestígios e pretendiam estabelecer as origens dos povos amazonense e várias foram as hipóteses: nômades dos Andes, vindos do Peru fugindo da conquista espanhola ou da América Central, e com maiores possibilidades, das Antilhas. Outra seria um êxodo começado no Grande Chaco e escavações em Quito têm encontrado provas de que as grandes culturas do Peru e México tiveram origem no Equador. Essas pesquisas começaram em 1958, quando foi descoberta uma aldeia datável de cerca de 5 mil anos na cidade costeira de Valdívia; e desde então mais aldeias do mesmo período foram descobertas no interior, na direção da Amazônia, com cerâmicas, instrumentos e objetos decorativos revelando um nível insuspeitado de sofistificação. E nas primeiras descobertas geográficas os europeus encontraram povoados que são descritos com bastante reserva.
Mesmo o índio desconhecendo o torno e operando com instrumentos rudimentares, conseguiu criar uma cerâmica de valor, que dá a impressão de superação dos estágios primitivos da Idade da pedra e do bronze.
Foram identificadas várias fases da cerâmica brasileira , que foram divididas em:
    • Ananatuba: a mais generalizada e provavelmente atribuível às primeiras sedimentações datáveis entre o séc. VII e o X a.C. , apresentando uma técnica plenamente desenvolvida, povo dividido em tribos, cada um ocupando uma única maloca e abrigando uma centena de moradores;
    • Mangueiras: pertencente ao grupo que sucessivamente prevaleceu sobre o primitivo Ananatuba, sua duração estimada entre o séc. IX e o XII;
    • Formiga: outro grupo coevo deste último, mas com a cerâmica mais pobre;
    • Aruã :denominação dada por pesquisadores europeus a um grupo que vivia em pequenas ilhas no Amazonas, tudo indicando uma cultura bastante singular, em face do uso de urnas funerárias, um ritual de notável contribuição na determinação de fases;
    • Marajó: é um capítulo à parte. Ela foi elaborada por povos que habitaram a bacia Amazônica do ano 980 A.C. até o séc. XVIII e é arqueológica. Através dela a gente pode observar a evolução, o apogeu e a decadência da cultura de um povo. A riqueza de detalhes, a exuberância das cores, a variedade dos objetos (como fusos, colheres, tangas, bancos, estatuetas e adornos) , as técnicas de brunimento (alguns feitos com conchas) foram perdendo qualidade com o tempo. Os grandes aterros de louçaria e estatuetas encontrados na ilha de Marajó mostram bem esta falência. Hoje, o que existe de cerâmica marajoara pode ser visto no Museu Goeldi, em Belém. Não tem nada haver com as peças que encontram-se nas feiras de artesanato ou nas lojas dos grandes centros que dizem vender peças folclóricas. Na maioria, esses objetos são industrializados e não passam de tentativas grosseiras de cópias, sem maior significado cultural.
DESCRIÇÃO DA TÉCNICA
As artes cerâmicas moldam minerais das entranhas da terra (metais, barro, argila, areia, etc.) dando origem a utensílios, peças ornamentais, urnas funerárias e os mais variados produtos da imaginação do homem.
Ela demanda calma e circunspeção: a argila e os elementos de liga devem ser cuidadosamente escolhidos e o manejo deve ser paciente porque ela oferece tantas possibilidades quanto variações e rupturas após a queima; assim uma peça cerâmica contém além de todos esses ingredientes e cuidados, a apreensão, o suspense e o ardor.
Ela pode ser manufaturada ou industrializada e sua matéria-prima principal é a argila, o caulino, o barro, a pasta. Modelada e cozida ao sol, em fogueiras ou em fornos aquecidos a temperatura conveniente, o produto pode ter cor natural, preto ou em variações que ocorrem do amarelo ao vermelho, podendo ainda, ser revestido de pintura, composta de silicalcalinos ou vernizes à base de chumbo ou estanho, formando um esmalte brilhante e resistente com ricas variações.
Existem diversas argilas nas quais se podem adicionar outros elementos para obter maior plasticidade e coesão e ainda um bom cozimento.
As argilas são rochas normalmente de origem sedimentares e provenientes da alteração de rochas silicadas. Os minerais que as constituem são fundamentalmente a caulinite, a ilite ou a montemorilonite. Do ponto de vista químico, as argilas são aluminosilicatos hidratados apresentando espécies muito variadas de fórmula genérica
O3, al quatro . SiO2. H2O.
Encontra-se na natureza em estado de relativa pureza ou associadas aos mais diversos materiais, podendo adquirir, neste caso, propriedades e designações específicas. As Margas, por exemplo, são argilas com um elevado teor de calcário.
Geologicamente e quanto ao modo de formação das suas jazidas, as argilas classificam-se nos dois seguintes grupos:
- Argilas primárias: são as argilas que se mantiveram no seu local de formação. Apresentam-se por vezes associadas a restos da rocha de origem (granitos, gneisses ou feldspatos) com um grão relativamente grosso e em massas de cor branca, devida à pureza do ou dos minerais que a constituem. Há jazidas de caulino cujo teor em caulinite chega a atingir 98% .
- Argilas secundárias: são as argilas que, arrastadas por agentes naturais como a água, o vento ou mesmo os glaciares, se foram depositando longe do seu local de formação. Desse atribulado transporte resultou o seu grão bem mais fino e também a sua mistura com matérias orgânicas, etc. Podem apresentar-se coradas, ou não. São exemplos de argilas secundárias os barros gordos, os barros vermelhos, etc.
O caulino é uma argila de pureza considerável, capaz de suportar altas temperaturas e de cozedura, em geral bastante branca. É um componente muito importante ou mesmo fundamental de grande parte das pastas cerâmicas, nomeadamente das porcelanas. Sendo ele muito friável, não reúne, por si, só as condições necessárias para uma modelagem conveniente, tendo, para isso, que ser misturado com um barro mais plástico (mais gordo).
É uma matéria-prima muito abundante em grande parte da faixa costeira portuguesa com numerosos pontos de extração e de grade utilização na indústria cerâmica e ainda na do papel. Estes fatores, associados ao preço bastante acessível, tornam-no num material relativamente fácil de obter. Por certo, não haverá nenhuma fábrica de cerâmica que consuma caulino que se negue a vender-lhe pequenas quantidades. É um material muito interessante.
O barro é uma designação genérica na qual foram agrupadas um sem- número de misturas de argilas com as mais variadas espécies de impurezas. Os diversos minerais, os óxidos metálicos e as matérias orgânicas, associados às argilas em variadíssimas proporções, fazem com que as variedades de barros sejam inumeráveis e apresentem características muito distintas, quer em cru quer depois de cozidas. Note que na mesma extração é freqüente encontrar tipos de barros muito diferentes consoante, por exemplo, a profundidade a que se escava.
Os barros podem ser classificados
  • Segundo à plasticidade em:
- BARROS GORDOS - barros excessivamente plásticos, devido à forma, ao arranjo e às pequeníssimas dimensões das partículas que os constituem e por incorporarem percentagens relativamente elevadas de produtos orgânicos. Apresentam problemas à secagem: elevado índice de retração (encolhem demasiado) tendência para o aparecimento de deformações e de fendas.
- BARROS MAGROS - barros muito menos plásticos, devido ao maior tamanho das partículas argilosas e à presença, em percentagens mais elevadas, de materiais siliciosos ou até calcários. São mais friáveis e, por isso (mesmo quando devidamente humedecidos e amassados), excessivamente < quebradiços> para uma modelação conveniente. Apresentam contudo um melhor comportamento na secagem, nomeadamente no que se refere à resistência a roturas e deformações.
  • Segundo a coloração que adquirem depois de cozidos:
- BARROS DE COZEDURA BRANCA - barros não contendo ou contendo pequeníssimas percentagens de óxidos metálicos. Ficam brancos ou apresentam tonalidades próximas do branco depois de convenientemente cozidos.
É corrente designar-se por barro branco qualquer barro que dê cozedura branca mesmo que a sua cor em cru seja outra (freqüentemente cinzento mais ou menos carregado, até quase preto quando húmido.)
- BARROS DE COZEDURA CORADA - barros contendo percentagens mais ou menos elevadas de óxidos metálicos que lhe conferem colorações características depois de cozidos.
Os mais freqüentes na natureza são designados, genericamente, por barro vermelho, sua cor característica, depois de cozido. Sua utilização se dá com a telha, o tijolo e e quase toda a olaria popular e deve-se sobretudo à presença de óxidos de ferro e de manganês. Quando cru, pode apresentar cores que vão desde o cinzento ao esverdeado, ao azulado, ao amarelo-ocre e até a cores muito próximas das que terá depois de cozido.
A pasta é o material já preparado com que vamos produzir as nossas peças de cerâmica. Diríamos que, só excepcionalmente, ela poderá ser constituída por um único tipo de barro. Normalmente ela é constituída, no mínimo,por duas qualidades de barro diferentes, de modo a assegurar à mistura as qualidades que cada um dos barros, por si só, não possui e por produtos que lhe podem ser incorporados com objetivos muito precisos: emagrecedores, corantes, agentes plásticos, refratários, fundentes, etc.
Esta mistura é amassada com água até se obter um material perfeitamente homogêneo, mole e plástico: uma pasta de fato.
A composição das pastas cerâmicas tem que ter em conta fundamentalmente o tipo de objetos que vão ser produzidos e as exigências da técnica usada no seu fabrico. Assim, uma pasta para modelar pode não ser boa para levantar peças no torno e é óbvio que com uma pasta para tijolo não se podem fazer objetos de porcelana. No caso da indústria, a composição e o controle das pastas é muitas vezes uma tarefa complexa levada a cabo em laboratórios, por técnicos especializados.
Por extensão, a designação pasta foi-se aplicando às preparações que nem sequer se apresentam sob a forma de pasta. Assim, encontram-se pastas líquidas como as barbutinas de enchimento ou as pastas em pó, vendidas em sacos.
A pasta pode ser branca ou colorida por natureza; por sua vez porosa ou compacta; no uso com ou sem revestimento. O revestimento pode ser transparente ou opaco, às vezes exaurindo a permeabilidade das pastas (alcalino, quando empregado principalmente pelos ceramistas da antiguidade; silicioso, terroso, estanífero e outros) é aplicado geralmente com verniz, vitrificado ou esmaltado.
As derivações da cerâmica são:
    • - Terracota (opaca ou envernizada);
    • - Faiança ou prolífera (esmaltada);
    • - Grés (que recebe ambos os revestimentos acima citados);
    • - Produtos de olaria e de uso caseiro;
    • - Porcelana (translúcida, biscuit, vitrificada, caolínica ou dura) ;
Terracota é mais empregada como tijolos, ladrilhos, ornamentos para arquitetura, vasos de jardins, etc.
Faiança compreende as cerâmicas clássicas, de figuras em preto e vermelho; podem ser citadas a cerâmica mulçumana, a grafita italiana, a maiólica. A palavra ´faience´ deriva do nome da cidade de Faenza, centro italiano de cerâmica do período renascentista (séc. XV e XVI ), é de origem francesa. Ela designa produto cerâmico em geral, quando de pasta tenra, envernizada ou de esmalte opaco, revestimento dito de ´vernizes estaníferos´ ou ´ esmalte estanífero´.
Outra derivação da cerâmica é a maiólica, possível derivação de Maiorca (ilha do arquipélago das Baleares no Mediterrâneo, e importante centro de comércio medieval. É uma cerâmica geralmente esmaltada em branco, que teve maior desenvolvimento nas cidades penisulares de Casteldurante, Castelli, Deruta, Forlí, Gubbio, Pesaro, Siena e Urbino.
porcelana difere da Faiança intimamente. É feita de uma argila especial chamada caulim que tem o quartzo e o feldspato como componentes; e estes lhe confere características genuínas como a sonoridade, a homogeneidade e a translucidez. As mais famosas jazidas de caulim estão na China, Japão e Alemanha - na região de Limoge e Sèvres.
A técnica de fabrico varia em cada região, mas basicamente pode ser considerada uniforme. Uma das variações de técnica interessante é aquela em que se aplica sobre a pasta crua uma cobertura especial a qual, com o calor do cozimento, confere uma qualidade vítrea ao acabamento, são as peças chamadas de cozidas "en blanc"As que são cozidas sem receber a cobertura constituem as chamadas em "biscuit".
A diferença básica entre a técnica européia e a chinesa reside na aplicação das cores: na Europa ela é pintada e na China é esmaltada (a tinta é um verdadeiro esmalte fixado numa base de óxidos metálicos.)
 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A Sociedade Colonial: uma reflexão sobre as moralidades e religiosidade popular na América Portuguesa (Séculos XVI-XVIII)

A Sociedade Colonial: uma reflexão sobre as moralidades e religiosidade popular na América Portuguesa (Séculos XVI-XVIII)


Patrícia Domingos Wooley Cardoso
Mestre em História pela UFF
vanessaepat@uol.com.br

    “Quem se debruça sobre a religiosidade colonial não pode ter como parâmetro as normas e os padrões do catolicismo doutrinal, ditado pela teologia e pelo direito canônico. A rigor, se este existe, não foi a colônia portuguesa da América o lugar adequado para se visualizar sua forma acabada. O que aqui se vê é um catolicismo popular marcado pela precariedade da evangelização e pela hipertrofia da constelação devocional.”

           
Esta afirmação de Caio Boschi, citada por Mariza Soares em Devotos da Cor, resume em si a essência da reflexão que proponho apresentar no presente texto, a respeito da religiosidade luso-brasileira desenvolvida ao longo dos séculos coloniais na América Portuguesa.

           
Ronaldo Vainfas em ‘Moralidades Brasílicas: deleites sexuais e linguagem erótica na sociedade escravista’, artigo publicado no primeiro volume da coleção História da Vida Privada no Brasil, lança um olhar histórico às intimidades sexuais dos colonos na América Portuguesa. Ao abordar o tema, Vainfas rediscute a idéia de miscigenação proposta por Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala, considerando aquela não uma característica da adaptabilidade lusa a outras raças, mas, parte de um projeto português de colonização. Procura, desse modo, traçar um perfil das mentalidades morais e religiosas na colônia.


Janela com grades no Convento de
Santa Teresa, no Rio de Janeiro:
proteção física diante dos perigos à
integridade moral e religiosa interna.
            Mediante as dificuldades em tratar de uma vida privada no mundo colonial; questão, aliás, muito bem discutida por Leila Algranti em artigo da mesma coletânea, Vainfas se utiliza de fontes eclesiásticas e inquisitoriais como instrumento valioso de aproximação às intimidades dos colonos. O próprio fato de tais fontes permitirem ao historiador tratar de forma sistemática do universo das intimidades sexuais na colônia, revela que o território da sexualidade, tal como o cotidiano familiar, era bem menos íntimo do que hoje se pode supor. As denúncias da população contra os que se desviavam dos comportamentos sexuais e morais lícitos, fosse por medo ou conveniência, demonstra que a preocupação com a intimidade não era relevante, num mundo de poucas cidades, em que as casas eram geralmente rústicas e devassadas, expostas aos constantes olhares dos vizinhos.

            Ronaldo Vainfas considera que a empresa colonizadora na América Portuguesa estaria ligada muito mais ao processo de expansão mercantil e marítima européia, do que à normatização, e privatização das sociabilidades em curso na Europa a partir do século XVI, fato esse analisado por Peter Burke em Cultura Popular na Idade Moderna. O que não implicou, no entanto, na ausência de projetos moralizantes destinados à sociedade luso-brasileira nos trópicos. Dentre os missionários aqui instalados, os jesuítas, representantes da devoção moderna tridentina, se destacaram em tentar, por todos os meios, transformar a terra brasilis em parte legítima da Cristandade, estimulando uniões sacramentadas e um modo de vida regrado. Contudo, Vainfas afirma que os representantes do clero viram-se frustrados pelos interesses mercantis da colonização, e pelo hibridismo cultural que a América Lusitana possuía por natureza. Por outro lado, essa não é a opinião de Luiz Felipe de Alencastro. Este autor acredita que a lógica evangelizadora dos missionários não excluía o caráter mercantilista do esforço de colonização; pelo contrário, justificava a compatibilidade entre escravidão e catolicismo.


          No seu livro O Trato dos Viventes, Alencastro lembra que Nóbrega, desejoso em conciliar a incumbência da catequese à condição cativa dos africanos, sugeria a D. João III uma legislação clara a respeito do matrimônio entre escravos. Tal união, nas palavras do pioneiro jesuíta, não isentava os cônjuges do cativeiro, e tão pouco obrigava seus senhores a alforriá-los. De qualquer forma, a despeito das impressões acerca da atuação missionária jesuítica, o que pretendo destacar aqui é que através da análise das moralidades coloniais, é possível vislumbrar certos aspectos característicos da religiosidade popular luso-brasileira. Dentre esses aspectos, sem dúvida, a mistura entre sagrado e profano é evidente.


        Como bem lembra Ronaldo Vainfas, diferente do ocorre hoje, a sexualidade na época moderna não constituía uma esfera privada, de foro íntimo dos indivíduos; antes, a igreja considerava esse universo matéria de sua alçada. Dentro da lógica da reforma tridentina, todas as relações mantidas fora do casamento, mesmo aquelas estáveis, eram consideradas ilícitas, e qualificadas como pecado. No entanto, no campo das moralidades sexuais populares, o sagrado não se separava do profano. Segundo Vainfas, não raro as pessoas atribuíam características eróticas à Virgem, aos santos e ao próprio Cristo. Nos papéis da visitação quinhentista do Santo Ofício ao Brasil, acusações como essas são bastante freqüentes. Havia também denúncias contra mulheres que, em suas relações íntimas com os maridos, proferiam as palavras de consagração da hóstia, como se estivessem, do mesmo modo, consagrando seus momentos de intimidade.
"Roda dos Expostos" do Convento de Santa Clara do Desterro, em
Salvador. Crianças de relações
ilícitas eram constantemente
abandonadas em nome da honra.

           
Além dessas manifestações típicas de uma religiosidade popular, existia ainda um vasto terreno de magias e sortilégios amorosos, por vezes assimilados pela Inquisição como feitiçaria, mas, que na verdade, não deixam de evidenciar uma religiosidade pouco interiorizada.

                    Os lugares privados para o prazer eram escassos na colônia. A rusticidade dos domicílios, conforme já foi lembrado, não permitia muita intimidade entre as pessoas, o que fazia com que alcovas fossem improvisadas em tabernas e lojas, na densa vegetação do mundo rural, ou nas próprias igrejas e capelas. A igreja, aliás, era o espaço de sociabilidade por excelência no mundo colonial, e não foram poucos, segundo Vainfas, os encontros amorosos ocorridos durante as missas dominicais, procissões e festas religiosas. O mesmo acontecia nas casas de recolhimento e nos poucos conventos estabelecidos na América Portuguesa. Inclusive, este autor argumenta que a representação, nas falas populares, de um Cristo com órgão fálico, ou uma Nossa Senhora personificada em mulher comum, indicam a necessidade, ou vontade, dessas pessoas em aproximar o sagrado do cotidiano, da vida real. Para Ronaldo Vainfas, portanto, tais fatos não indicam perversão ou desejo de subverter a doutrina e os símbolos católicos, antes, representam a mistura entre sagrado e profano, marca indelével da mentalidade popular religiosa no Brasil Colonial.

As representações de Nossa Senhora eram as mais comuns no mundo Colonial. As imagens de santos constituíam peças constantes do cotidiano religioso colonial.

            Peter Burke, em seu já citado trabalho Cultura Popular na Idade Moderna, apresenta toda a complexidade do termo "cultura popular", que ele define num primeiro momento como sendo aquela não oficial, a da "não-elite", a das classes subalternas. Burke coloca a necessidade de se pensar nos artesãos e camponeses dos inícios da Europa Moderna a partir de um mundo totalmente diferente do atual, despido de conceitos e valores contemporâneos; conselho esse, aliás, não menos pertinente ao tratamento da sociedade colonial. É a partir daí, que ele apresenta sua hipótese, a de que a cultura popular, nos inícios do período moderno, não era estranha à minoria culta da ocidentalidade européia, essa a tinha como uma espécie de segunda tradição. 

Em outras palavras, tanto a maioria da população, quanto sua pequena parcela erudita, compartilhavam de uma cultura popular comum. Até pelo menos a primeira metade do século XVII, as elites participavam das festas de rua e carnaval, juntamente com os grupos menos abastados. Mas ao longo dos tempos modernos, a renascença, as reformas religiosas, a revolução científica e a ilustração fizeram com que a cultura erudita se transformasse, ao passo que entre pequena e grande tradições, uma imensa distância foi estabelecida. Por fim, a cultura popular tradicional passou aos olhos da minoria letrada como algo tão diferente, a ponto de ser exótico, e por isso atraente. No século XIX, essa cultura tradicional se transforma em folclore. Na realidade, as elites intelectuais redescobrem a cultura popular no século XIX, a partir da perspectiva do folclore. Como causa, ou conseqüência de tais transformações, Burke afirma que a reforma Tridentina, assim como as reformas protestantes de um modo geral, empreenderam um esforço de reformulação da religiosidade popular na Europa a partir do século XVI, visando moldar suas extravagâncias carnavalescas e exterioridades.                                 

        No que se refere a esses movimentos reformistas dos séculos XVI e XVII, Jean Delumeau em A Civilização do Renascimento, particularmente no capítulo intitulado ‘O Renascimento como Reforma da Igreja’, procura analisar as reformas religiosas não como resultado dos enormes abusos da Igreja de Roma, e sim como conseqüência de uma mudança no cristianismo popular a partir do século XVI.


Martinho Lutero, principal teólogo da Reforma
              O autor coloca a existência de um fator principal que caracteriza a vida religiosa nesse momento: a ascensão da devoção popular. Segundo ele, a ambição de poder temporal e o comércio da fé não deixaram de ser motivo de clamores por reformas, clamores esses, aliás, que já vinham desde a Idade média. Entretanto, no século XVI, num ambiente ‘arejado’ pelo humanismo, o controle da Igreja Católica sobre a fé não se fazia mais exclusivo como no período anterior; ainda que, provavelmente, esse controle nunca tenha sido excepcionalmente marcante; o que se evidencia pela sobrevivência, ao longo de toda a baixa idade média, de rituais pagãos, por vezes incorporados às manifestações cristãs. O fato é que agora, as pessoas poderiam escolher entre as pregações emotivas dos luteranos e demais grupos reformistas protestantes, e as missas católicas em latim, que em geral, não correspondiam aos anseios da maioria da população.

          Para Delumeau a principal fraqueza da Igreja no período antecedente as reformas não estava nos abusos financeiros da cúria romana, nem no estilo de vida, por vezes escandaloso dos altos dignitários eclesiásticos, nem nos desregramentos de certos monges, nem no número seguramente grande, dos padres concubinários. Residia, sim, na muito deficiente instrução religiosa e na insuficiente formação dos pastores de almas, que freqüentemente eram incapazes de ministrar de forma eficaz os sacramentos e de apresentar de modo válido a mensagem evangélica. Daí podemos entender que a religiosidade popular nos inícios da época moderna era muito mais ritualizada do que sentida. As pessoas acreditavam sinceramente em Deus e no intermédio da Igreja, o que de forma nenhuma significava barreira na hora de procurar auxílio de curandeiros, fazer uso de simpatias e sortilégios, ou de vestir-se de pároco no carnaval. 

           
Segundo Burke, uma vez que os protestantes atentam para essa carência religiosa, ganham espaço em várias áreas da Europa. As pregações luteranas, por exemplo, eram repletas de cânticos e leitura de salmos nas línguas locais, o que agradava os ouvintes. A Igreja Romana teria percebido a necessidade de renovação no tratamento com os fiéis tardiamente, o que não a impediu de mover também sua reforma, clarificando os ensinamentos e a doutrina católica por meio de catecismos, além de se preocupar com o preparo dos padres, que passaram a ser formados em escolas especiais, os seminários. Do ponto de vista de Delumeau, os fiéis impunham-se, mais que outrora, à atenção dos responsáveis pelas almas. E é nesse sentido que ele verifica a ascensão de uma devoção popular mais interiorizada.

           
Peter Burke, por sua vez, não acredita que essas reformas religiosas necessariamente significaram a imposição dos anseios dos fiéis a seus líderes. Mesmo considerando aspectos positivos das reformas, como a tradução da Bíblia para línguas vernáculas e o crescimento da alfabetização, verificado, sobretudo, em áreas protestantes, o autor inglês considera, que esse catecismo mostrou-se negativo no sentido de minar a cultura popular tradicional, normatizando suas manifestações e criando modelos de conduta repressivos, ou seja, proporcionando o que ele chama de ‘a vitória da quaresma sobre o carnaval’. Na verdade, conforme argumenta Peter Burke, a busca interna de Deus e a idéia de um relacionamento direto com Ele são contribuições positivas do humanismo às reformas, o que, no entanto, não significava, para a maioria da população, que tal envolvimento com Deus implicasse num distanciamento de seus costumes e tradições culturais. É nessa direção, que a cultura popular tradicional se fez resistente em algumas partes da Europa durante muito tempo, permitindo, assim, que rituais de origem medieval, festas carnavalescas e peças de mistérios sobrevivessem às reformas e a interiorização da religião.

Dessa forma, tanto Peter Burke, como Jean Delumeau, identificam um processo longo e complexo de normatização cultural no ocidente europeu, propiciado, inicialmente, pelas discussões do humanismo e pelas reformas religiosas. Para qualificar tal processo, Burke utiliza a expressão weberiana ‘desencantamento do mundo’. Esse desencantamento foi bastante irregular no tempo e no espaço. Segundo Burke, a cultura popular tradicional era resistente. Em muitas áreas, até mesmo protestantes, a festas religiosas e rituais carnavalescos persistiram da forma tradicional ainda em fins do século XVII e no século XVIII. Voltando-se para o objeto de análise da presente reflexão, que é a religiosidade na sociedade colonial, fico a imaginar o Brasil setecentista; ou até mesmo oitocentista, onde provavelmente festas populares e religiosas prosseguiram apresentando muito do "folclore" tradicional original, sendo frágil a fronteira entre popular e erudito, sagrado e profano. Aqui, essa certa interiorização da religião, verificada principalmente a partir de meados do século XVII na Europa, estava longe de ser um dado efetivo. A religiosidade na América Portuguesa, assim como o catolicismo lusitano, caracterizaram-se por uma natureza exteriorizada das manifestações de fé.

           
Esse caráter pouco interiorizado da religiosidade colonial é evidenciado num artigo de Luiz Mott, também publicado no primeiro volume da coleção ‘História da Vida Privada no Brasil’. Em Cotidiano e Vivência Religiosa: entre a capela e o calundu, Mott traça um perfil das manifestações religiosas no seio da sociedade colonial. Este autor julga que a religiosidade luso-brasileira desenvolvida na América Portuguesa foi marcada antes de tudo por uma carência estrutural; carência essa refletida no número insuficiente dos párocos e na pouca instrução que esses possuíam para a orientação das almas, uma vez que os seminários eram pouco comuns na colônia. Além disso, afirma que tal carência contribuiu de um lado à maior indiferença e apatia por parte dos colonos frente às práticas religiosas comunitárias, e do outro, ao incremento da vida religiosa privada, que, na falta do controle dos párocos, abria maior espaço para desvios e heterodoxias.

            A ritualização religiosa mostrava-se presente em variados aspectos e práticas difundidas nessa sociedade. As moradas coloniais, por exemplo, ainda que rústicas, freqüentemente eram decoradas com símbolos religiosos, imagens sacras, amuletos e quadros, que sinalizavam a presença do sagrado no espaço privado do lar. Nem sempre, no entanto, a relação dos colonos com os santos e símbolos eclesiásticos era a mais ortodoxa. Os xingamentos à Virgem e os ‘maus tratos’ cometidos contra imagens de santos eram uma constante no cotidiano religioso da colônia. Luiz Mott nos conta, que os devotos não atendidos em suas preces, por vezes colocavam seus santos de devoção de castigo, trancando-os em baús escuros ou os virando de cabeça para baixo, até que estes resolvessem atender os pedidos feitos. A penitência, por sua vez, uma das principais manifestações da exteriorização do catolicismo popular, não era menos freqüente. Tanto os indivíduos pobres, quanto as gentes de mor qualidade, apelavam aos martírios a fim de chamarem a atenção da autoridade divina. Já os colonos mais abastados, zelosos ou duvidosos em relação ao destino de suas almas, deixavam importâncias em dinheiro, ou bens materiais, para a celebração de missas pós-mortem. Portanto, entre os fiéis coloniais, existiam desde àqueles mais fervorosos e devotos, até àqueles que cumpriam os rituais católicos menos por devoção, do que por convenção social e obrigação.

            As ‘donzelas recolhidas’, por exemplo, eram mulheres que mesmo não estando em conventos, raros na América Portuguesa, faziam questão de viver uma vida de penitências e orações em suas próprias casas, demonstrando um zelo extremado com a vida espiritual e as práticas católicas.


Oratório de Alcova e Oratório Decorado

Em todas as habitações coloniais,
desde as mais rústicas às casas abastadas,
o Oratório era uma peça fundamental ao
exercício da religiosidade doméstica
(fonte: Museu do Oratório).


              Dentre os casos citados pelo autor, destaco o das irmãs donzelas Maria de Castro e Beatriz da Costa, que viveram na comarca de Alagoas no início do século XVIII. Estas ‘santas’ viveram em clausura perpétua dentro de casa, buscando a perfeição divina através dos mais variados martírios e penitências. Debilitavam o corpo “com os rigores de um perpétuo jejum, banhando-o com rigorosos açoites, usando penetrantes espinhos em lugar de cilícios, passando dias e noites em contínuas orações.” Segundo Mott esse tipo de religiosidade privada é pouco estudada pela historiografia sobre colônia, sendo o número de adeptas de tais práticas bem maior do que se costuma registrar.

           
Outra expressão religiosa, pouco ortodoxa, é verdade, mas comum no mundo luso-brasileiro ao longo dos séculos XVI –XVIII eram os constantes apelos às feiticeiras, benzedeiras, simpatias e mandingas. As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707), única legislação eclesiástica em todo o período colonial, demonstravam especial atenção às feitiçarias e práticas de mau agouro, prevendo punições severas, inclusive degredo, para os adeptos de tais sortilégios. No entanto, a despeito das tentativas eclesiásticas de controlar esses rituais, Mott afirma que no Brasil colonial “em toda rua, povoado, bairro rural ou freguesia, lá estavam as rezadeiras, benzedeiras e adivinhos prestando tão valorizado serviço à vizinhança.” Geralmente, as pessoas que praticavam esses sortilégios eram humildes. Luiz Mott cita o caso de uma pequena vizinhança rural em Pernambuco, que em meados do século XVIII possuía uma centena de cristãos que praticavam abertamente variada gama de bênçãos proibidas. Pretas forras benziam mau olhado, brancos, pardos, negros livres e escravos realizavam toda a sorte de benzeduras. Além do ensinamento de simpatias amorosas, uns “curavam carne quebrada”, outros “ventre caído”, “bicheiras”, “baço”, e o que mais fosse solicitado pelos colonos nesse mundo desprovido não somente de instrução espiritual, mas em grande parte de cuidados e conhecimentos médicos.

De acordo com Luiz Mott, o baixo clero geralmente demonstrava indiferença em face desses rituais condenados pela legislação eclesiástica, quando não os estimulava de alguma forma. A própria Inquisição, em algumas ocasiões, agiu com brandura frente a tais desvios tão comuns na América Portuguesa; talvez por perceber se tratar menos de heresia do que de falta de recursos. O mesmo ocorria com rituais heterodoxos tribais, de origem nativa ou africana, que por vezes implicavam em idolatria de divindades estranhas ao catolicismo, quando não ao próprio diabo. Ainda assim, os adeptos dos Calundus procuravam se preservar de possíveis ameaças eclesiásticas ou inquisitoriais, praticando seus ritos à noite, em lugares afastados. Mas, se essas pessoas fossem acusadas de negligenciar a religião católica, antes delas seriam os próprios padres, uma vez que, não raro, resvalavam na disciplina religiosa. A confissão, um dos sacramentos fundamentais da Igreja, sobretudo a partir de Trento, por vezes era ouvida dentro da sacristia, no alpendre das casas, ou até mesmo em redes. Isso quando os padres não tornavam público o assunto da confissão, ou pior, solicitavam suas penitentes para a prática de ‘atos impuros’. De qualquer forma, tanto a excessiva devoção das ‘donzelas recolhidas’, como as práticas populares de benzeduras e calundus, ou ainda, a insólita espiritualidade demonstrada por certos párocos, revelam, como já tenho afirmado, o caráter pouco interiorizado da religiosidade no mundo colonial luso-brasileiro. Nesse sentido, Trópicos dos Pecados, outro trabalho de Ronaldo Vainfas, consiste em uma preciosa oportunidade de contato com a memória colonial, através de personagens não muito convencionais, tais como fornicários, bígamos, e sodomitas; mas, especialmente ricos para o entendimento da natureza dessa religiosidade desenvolvida na América Lusitana.

O que ocorre é que, a partir do Concílio de Trento (1563), a Igreja Católica, de um lado, vai investir na formação espiritual dos padres, e, de outro, reforçar sua posição doutrinal frente à direção das almas. Assim, dentre as principais resoluções, Trento reafirma a autoridade papal e concede ao matrimônio status de sacramento. A religiosidade popular, por sua vez, frouxa, e em muito misturada com ritos e costumes pagãos, necessitava ser refreada, moldada, depurada. É nessa atmosfera, que a Inquisição Ibérica passa a se preocupar com os comportamentos, particularmente com os comportamentos sexuais; aqueles que, de alguma forma, infligiam os santos mandamentos (e por que não dizer as convenções sociais), e que, portanto, configuravam erros de fé.

Desse modo, bígamos, sodomitas, fornicários, entre outros, passaram ao posto de ‘candidatos’ a hereges. Diferente não foi na América Portuguesa, ainda que o Novo Mundo, conforme o exposto por Ronaldo Vainfas, estivesse mais inserido na atmosfera de expansão comercial européia, do que no processo de normatização cultural analisado por Peter Burke. Em todo caso, o espírito reformista do século XVI chegou ao ultramar antes mesmo de Trento, através dos incansáveis padres da Companhia de Jesus. E é justamente a ação inquisitorial ibérica sobre as moralidades sexuais dos colonos, o objeto de análise e questionamento de Vainfas nesse trabalho. O que me interessa no momento, contudo, é frisar o fato de que, grande parte desses ‘candidatos’ a hereges, não tinham a intenção de transgredir os dogmas católicos, muito pelo contrário.

Os bígamos, por exemplo, conforme sugere o autor, deviam amar, e muito, o matrimônio; pois se assim não fosse, por que se casariam tantas vezes? Os fornicários, como ‘bons’ cristãos que eram, não admitiam desrespeito com moças direitas e mulheres casadas, no entanto, não viam pecado em se deitar com as solteiras (solteira não no sentido de hoje, mas como mulher pública, sem compromisso com família), identificadas, sobretudo, na imagem das escravas, nativas, mulatas e negras forras. Esse último fato, sem dúvida, revela o estigma social a que estavam submetidos escravos e mestiços, mas, de forma alguma, configura intenção de subverter o sacramento do matrimônio. Por outro lado, os acusados de sodomia, ainda que entre eles existissem pecadores convictos, talvez fossem menos produto da devassidão dos trópicos, do que vítimas da opressão escravista e social a qual muitos estavam submetidos. Na verdade, a inquisição rastreava heresias em falas populares, culpabilizando as moralidades de gente simples; gente essa que, no ultramar português, estava longe de ser atingida pela devoção moderna em desenvolvimento no mundo europeu a partir do século XVI.

Esta constatação, ao meu ver, revela um choque entre tradições diferentes: uma sociedade majoritariamente oral e sem grande instrução religiosa, obrigada a sujeitar-se às convicções de uma cultura erudita, representada na ação eclesiástica dos visitadores diocesanos e da inquisição lisboeta. Contudo, essa autoridade eclesiástica oficial, a despeito de sua erudição e esforços pouco sistemáticos (com exceção da Companhia de Jesus, representante, mas do que qualquer outra ordem regular, do espírito tridentino), não foi capaz de romper, na América Portuguesa, a frágil fronteira entre sagrado e profano. No fundo, a religiosidade exteriorizada, que aqui se desenvolveu ao longo do período colonial, é herdeira do Antigo Regime português e possui, em sua essência, a ritualização das coisas da fé.

          
Como apenas citei o trabalho de Mariza Soares, Devotos da Cor, não poderia deixar de retomá-lo nesse momento. Neste livro, a autora analisa as relações sociais e identidades étnicas desenvolvidas em torno de uma irmandade de negros no Rio de Janeiro do século XVIII, que congregava em si devotos oriundos da atual região do Daomé, denominados genericamente de makis. É um trabalho original, primeiro por que a documentação reunida pela autora, relativa a grupos étnicos do atual Daomé no século XVIII, é inédita e vem iluminar as pesquisas sobre escravidão e tráfico negreiro no Rio de Janeiro desse período. Por outro lado, mas não menos importante, as irmandades, ainda pouco estudadas pela historiografia, são elementos relevantes à compreensão da religiosidade colonial, uma vez que constituíam espaços especiais de devoção leiga. Distintas das ‘Ordens Terceiras’, que eram subordinadas, institucional e espiritualmente, a uma ordem religiosa determinada, as Irmandades eram regidas por estatutos independentes, os chamados compromissos, que necessitavam, no entanto, de aprovação régia por meio da Mesa de Consciência e Ordens. Mas o que convém destacar aqui, conforme nos coloca a autora, é que essas Irmandades, fossem elas de ‘pretos’ ou não, são marcadas pelas regras sociais e de hierarquia do Antigo Regime. Novamente, apontando para o caráter ritualizado da religiosidade colonial, Mariza Soares diz que “na Cidade do Rio de Janeiro, como de resto em todo o império português, as Irmandades de ‘pretos’ (forros e escravos) fazem procissões e funerais pomposos, escolhem reis e rainhas, e organizam suas ‘cortes’ através dos reinados da folia.” Antes de representarem um sincretismo religioso, essas instituições de devoção leiga dos ‘pretos’ simbolizavam a reelaboração de identidades e a incorporação, verificada em todos os níveis sociais, dos ideais de sociedade típicos de Antigo Regime.

           
O Dicionário do Brasil Colonial, por sua vez, define irmandade como um modelo associativo de fiéis, surgido no contexto da reforma Tridentina, e que, sob o influxo de fatores diversos, tais como a valorização da religiosidade leiga, a difusão do culto aos santos e os esforços dos missionários na evangelização das populações, se difunde por toda a Europa ao longo do período moderno. Em Portugal, essas associações se faziam presentes desde a época da expansão marítima, atingindo, portanto, seus domínios ultramarinos.

      As irmandades foram bastante difundidas no mundo colonial brasileiro, principalmente nos séculos XVII e XVIII. Além de configurarem redes de sociabilidade e solidariedade entre seus membros, as Irmandades reproduziam as principais distinções profissionais, econômicas, jurídicas e étnicas vigentes na América Portuguesa. Como bem lembra o verbete do referido dicionário, essas instituições perpassaram de alto a baixo a sociedade colonial, preservando a natureza desigual das sociedades de Antigo Regime. Esse fato é evidente nas famosas disputas entre associações de uma mesma localidade, que pretendiam se distinguir uma das outras em busca de privilégios. Dessa forma, investiam altas somas na construção e ornamentação de igrejas-sede, além de disputarem lugares de maior projeção nas procissões solenes dos festejos públicos.
A religiosidade popular, estimulada pelo
clero, investiu na construção de suntuosos
edifícios nas cidades mais ricas da
colônia, caso de Olinda, por exemplo.

            
Concluindo, a ritualização religiosa característica da América Portuguesa, verificada não somente nos costumes e práticas cotidianas descritas por Ronaldo Vainfas e Luiz Mott, mas também nas pomposas procissões e festas religiosas promovidas pelas irmandades; aponta para uma sociedade fortemente marcada pelas regras de sociabilidade do Antigo Regime. Portanto, a religiosidade colonial, bem como as formas assumidas por ela no seio dos diferentes grupos sociais, está inserida numa realidade onde as aparências importam mais do que as evidências. Como bem resume o Dicionário do Brasil Colonial, as sociedades de Antigo Regime, e dentre elas a sociedade luso-brasileira desenvolvida nos trópicos, concebiam a vida como uma liturgia, uma encenação permanente dos mesmos gestos e atitudes tomados pelos antepassados, num mundo ainda encantado, dominado pela magia e religiosidade. Mundo esse, aliás, fruto do predomínio de uma cultura majoritariamente oral, destituída de consciência histórica, como diria Hans Georg Gadamer, e, que, nessa perspectiva, situava a religião como o instrumento quase exclusivo para estabelecer as identidades e interpretar a realidade. Sendo assim, dizer que os homens coloniais possuíam uma religiosidade exteriorizada, ou melhor, pouco interiorizada, fossem eles livres ou cativos, proprietários ou despossuídos; não significa necessariamente afirmar que eram débeis ou descrentes em matéria de fé, mas, antes, que viviam a fé dentro dos limites impostos a eles pela lógica do Antigo Regime. Enfim, “na análise da religiosidade colonial deve-se procurar penetrar na natureza dessa aparente exterioridade.”


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